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Oferta de ações de empresas de construção civil sinaliza retomada do setor

crise do coronavírus já parece página virada para as empresas da construção civil. Pelo menos na bolsa de valores brasileira. O calendário de ofertas de ações de companhias do setor para os próximos meses traz nomes como LavviYou IncMelnick Even, entre outras. As construtoras já sinalizaram que iniciarão ou retomarão os processos de abertura de capital no segundo semestre de 2020.

 

Neste ano, outras duas já entraram na B3, ambas em fevereiro. A primeira foi a Mitre (MTRE3), com captação de R$1,8 bilhão. E a outra foi a Moura Dubeux (MDNE3), que alcançou R$ 1,25 bilhão. Por enquanto, atualmente, há 22 companhias deste setor listadas na Bolsa.

 

Foram mais de dez anos sem que empresas de construção abrissem capital. Antes de 2020, a última oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) havia sido a da Direcional (DIRR3), em 2009, com a captação de R$ 250 milhões.

 

A corrida de construtoras rumo à Bolsa já era esperada desde o final do ano passado, quando o setor obteve um bom desempenho, com diversos papéis encerrando em alta. O Imob, índice da B3 que acompanha as ações de companhias do mercado imobiliário, apresentou variação positiva de 70,60% em 2019 – mais que o dobro do Ibovespa.

 

Apesar de afetada pela pandemia, a indústria da construção civil parece ter superado seu pior momento na crise, segundo a última sondagem a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O estudo, divulgado no final de junho, mostrou que o nível de atividade e o de emprego do setor registraram nova queda em maio, mas a retração nos dois indicadores foi menos intensa do que as de abril e março.

 

E as primeiras prévias operacionais do setor de construção civil referentes ao segundo trimestre de 2020 já animaram investidores com números acima da expectativa do mercado. Isso aliado a uma baixa taxa básica de juros, que facilita a demanda por financiamentos imobiliários, leva analistas a acreditarem na retomada deste segmento no pós-pandemia de forma mais acelerada.

 

Por que as empresas da construção civil estão indo à bolsa?

 

A economista Paloma Brum, da Toro Investimentos, lembra que o setor vem se recuperando de anos difíceis e tem encontrado oportunidades de crescimento em um cenário com retomada de vendas, aumento de lançamentos e compra de terrenos. A Selic no piso histórico de 2,25% ao ano também propicia o aumento de crédito para os brasileiros que buscam comprar imóveis.

 

“Com o mercado acreditando que o pior (da pandemia) já passou, e diante da injeção de liquidez por parte das grandes economias, as bolsas globais têm se recuperado, registros de IPOs voltaram a ocorrer nos EUA, principalmente de empresas de tecnologia. E o mercado brasileiro de ações tem acompanhado esse movimento de otimismo para o lançamento de novas empresas na Bolsa”, acrescenta.

 

João Beck, especialista em investimentos e sócio da BRA, avalia que os próximos meses deverão ser movimentados, uma vez que o mercado imobiliário se prepara para uma retomada “vigorosa”.

 

“Com o maior interesse de investidores no setor, a expectativa é de que as captações possam dobrar nos próximos meses, já que outros grupos se preparam para ir à Bolsa”, aposta Beck. Além disso, ele avalia que o timing é favorável devido ao Marco Legal do saneamento básico, recém-aprovado pelo Congresso Brasileiro.

 

Paloma concorda que essa corrida para abertura de capital só está no começo, beneficiada pela conjuntura econômica de juros baixos, ajustes fiscais e previsão de reformas estruturais. Além disso, a economista enxerga muito espaço para a Bolsa crescer.

 

“Só na Nyse (Nova York), são mais de 2.700 empresas listadas. Enquanto na B3, são pouco mais de 300. Isso já nos dá um norte do potencial do mercado de ações aqui no Brasil para os próximos anos, que tende a ser acelerado com a retomada do crescimento econômico do País.”

 

Márcio Lorega, da Ativa Investimentos, sublinha que o rating de crédito das empresas de construção civil como um todo não é dos melhores, o que tornaria mais cara a captação de recursos via bancos. O rating é um indicador de risco de não-pagamento, atribuído a empresas ou operações.

 

Lorega também ressalta que todos esses IPOs tomam por base um cenário de superação dos problemas causados pela pandemia. Contudo, é preciso ter atenção porque os riscos ainda existem. “Uma segunda onda de covid-19 poderia vir a atrapalhar os planos pós-captação de recursos, como o adiamento de investimentos.”

 

O que esperar dos próximos IPOs?

 

A Lavvi, da qual a Cyrela (CYRE3) é acionista, protocolou um pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para realizar o seu IPO. Conforme fato relevante divulgado pela empresa, será uma emissão primária e secundária de ações, mas ainda não há detalhamento sobre volume a ser vendido, valores e cronograma.

 

“A Cyrela vai se desfazer de um percentual da empresa, muito provavelmente para botar o recurso em caixa”, explica Márcio Lorega, analista da Ativa Investimentos.

 

A Lavvi foi criada em 1º de novembro de 2016, como uma joint venture entre a Cyrela e a RH Empreendimentos Imobiliários, com foco em projetos no segmento médio e alto padrão na cidade de São Paulo. Atualmente, a Cyrela detém 45% do capital social da Lavvi.

 

“Com esse IPO, ela [Lavvi] acaba gerando recurso para o seu caixa, e deve usar esse recurso para empreender, fazer novas construções e aproveitar um mercado que pode se aquecer em um cenário sem segunda onda de coronavírus”, analisa Lorega.

 

Nesta segunda-feira (13), a You Inc definiu a faixa indicativa de preço de sua oferta pública primária e secundária de ações entre R$ 17,50 e R$ 23,50. Com isso, a empresa pode capitalizar mais de R$ 1 bilhão. Serão emitidas 48 milhões de ações na oferta primária e, se houver demanda, a companhia pode acrescentar um lote suplementar de até 7,2 milhões ações ordinárias, das quais 2,8 milhões de ações são novas e até 4,4 milhões são do acionista vendedor Abrão Muszkat.

 

Apesar da You Inc não fazer parte da carteira de recomendação da Toro, Paloma lembra que, em 2019, a empresa informou lucro líquido de R$ 31 milhões em 2019, e as vendas líquidas aumentaram 133,4% no período.

 

Porém, a analista cita alguns dos riscos de quem optar por investir nesses papéis: “Possibilidade de atrasos na conclusão de empreendimentos ou falhas no processo de incorporação, bem como a empresa não ser bem-sucedida em implementar a sua estratégia de crescimento”.

 

Conforme anunciado pelo Estadão/Broadcast, a incorporadora Even (EVEN3) levará sua subsidiária Melnick Even para a B3 neste trimestre. A Even tem participação majoritária na empresa, uma das maiores do mercado imobiliário de Porto Alegre. Para realização da oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) foram contratados o BTG Pactual e o Itaú BBA.

 

A incorporadora ainda não se manifestou. João Beck, especialista em investimentos e sócio da BRA, lembra que os papéis da Even sofreram uma queda brusca neste ano, chegando a aproximadamente R$5. “Na segunda-feira (13), a ação chegou a ser cotada no preço de R$ 14,43, com uma alta de 188% referente a mínima do ano”.

 

A Melnick Even atua há 20 anos no Rio Grande do Sul e faz projetos residenciais, de médio e alto padrão, e salas comerciais. A empresa já levantou quase 30 empreendimentos e 1,5 mil apartamentos.

 

Lorega, da Ativa, lembra que a pandemia tem levado os consumidores a buscarem imóveis maiores, uma vez que isso pode gerar mais conforto para quem passa mais tempo em casa. Essa possível tendência pode beneficiar a Melnick.

 

“Ela já tem no seu portfólio esses projetos de alto e médio padrão, além de salas comerciais. Com essa captação, ela deve dar mais força aos novos lançamentos, para aproveitar esse potencial novo boom de alto e médio padrão”, afirma o analista.

 

 

Fonte: https://einvestidor.estadao.com.br/mercado/oferta-acoes-construcao-retomada/